Paciente acamado — seja por sequela de AVC, doença crônica avançada, pós-cirurgia grande, ou fase avançada de demência — exige rotina técnica que a família raramente aprende no hospital. Este guia reúne os cuidados fundamentais que devem acontecer todo dia, com atenção aos detalhes que fazem a diferença entre paciente confortável e paciente com escara, desidratação, ou pneumonia.
Mudança de decúbito — a cada 2 horas
Provavelmente o cuidado mais importante. Paciente parado na mesma posição por mais de 2 horas começa a formar escara em áreas de apoio (sacro, calcanhar, trocânter). Rotina básica:
- Alternar: dorsal (barriga pra cima) → lateral direita → dorsal → lateral esquerda;
- A cada 2 horas durante o dia E a noite (sim, precisa acordar pra virar);
- Usar coxins pra manter posição confortável — entre joelhos na lateral, sob calcanhares na dorsal;
- Nunca deixar paciente com peso em cima de sondas, cateteres ou orifícios de drenos;
- Registrar em papel a cada mudança — evita esquecer e ajuda equipe a acompanhar.
Higiene corporal
- Banho no leito diário: água morna, sabonete neutro, seca bem (pele úmida = escara mais rápido);
- Higiene íntima após cada evacuação: água morna + sabonete neutro. Trocar fralda imediatamente;
- Hidratação da pele com creme neutro 2x/dia — foca em áreas de apoio (sacro, calcanhar, trocânter);
- Higiene bucal 2-3x/dia mesmo se paciente não come — reduz risco de pneumonia aspirativa;
- Lavagem de cabelo semanal (com paciente na cama — existe touca de shampoo sem enxágue).
Alimentação e hidratação
- Sempre em posição semi-sentada (30-45°) durante e 30min após refeição — evita aspiração;
- Se disfagia (dificuldade pra engolir): consistência prescrita pela fono (pastosa, líquido espessado);
- Hidratação: 1,5-2L/dia se sem restrição. Oferecer água a cada 1-2h, mesmo se paciente não pede;
- Água com espessante se disfagia — água pura engasga fácil;
- Observar aceitação: recusa persistente pode ser sinal clínico (infecção, depressão, disfagia progredindo);
- Se sonda de alimentação (nasoenteral ou gastrostomia): flush com água antes e depois de administrar dieta, cabeceira sempre elevada, controle de volume conforme prescrito.
Prevenção de pneumonia aspirativa
Pneumonia aspirativa é uma das principais causas de internação e morte em paciente acamado. Vem de aspiração de saliva ou alimento pra via aérea. Prevenção:
- Cabeceira sempre 30-45° elevada (nunca deitado totalmente);
- Higiene bucal rigorosa (bactérias na boca são a fonte principal);
- Fonoterapia se disfagia — ajusta consistência e ensina manobra segura;
- Alimentar devagar, verificando engolir antes da próxima colherada;
- Ao menor sinal de aspiração (tosse ao comer, mudança de voz após engolir, dispneia), suspender e comunicar médico.
Mobilização passiva
Paciente acamado desenvolve contratura articular em semanas se ninguém movimenta. Rotina simples: 2-3x/dia, movimente cada articulação (ombro, cotovelo, punho, quadril, joelho, tornozelo) em toda amplitude possível. Sem forçar dor. Fisioterapeuta domiciliar orienta o protocolo — cuidador ou família mantém entre sessões. Fisioterapia preserva massa muscular, previne contratura e melhora circulação.
Cuidado com sondas e cateteres (se houver)
- Sonda vesical: bolsa coletora sempre abaixo da bexiga (evita refluxo), esvaziar quando 2/3 cheia, higiene íntima diária, comunicar se urina turva ou com odor forte;
- Sonda nasoenteral: fixação com micropore trocada a cada 3 dias, flush antes/depois de cada dieta, verificar posicionamento antes de administrar (borbulha em estômago com estetoscópio ou aspiração de resíduo);
- Traqueostomia: aspiração de secreção quando necessária (técnico ou enfermeiro), umidificação constante do ar, troca de curativo diária.
Sinais de alerta que exigem ligação médica ou PS
- Febre (mesmo baixa) — em acamado, sempre investigar;
- Confusão mental nova ou piora súbita — pode ser infecção, desidratação, distúrbio hidroeletrolítico;
- Dispneia ou saturação abaixo do habitual (se tem oxímetro);
- Redução súbita de urina (menos que 500ml em 12h);
- Sangramento em qualquer local (fezes, urina, ferida, sonda);
- Vômito repetido ou intolerância à dieta;
- Lesão nova de pele (mesmo pequena);
- Alteração de comportamento — apatia, agressividade nova, choro constante.
Quando a família não consegue mais fazer sozinha
Cuidado de acamado esgota. Rotação com cuidador profissional 12h ou 24h é comum e recomendado. O cuidador com experiência em acamado assume toda a rotina técnica (decúbito, higiene, alimentação, mobilização) e a família volta a ter espaço pra respirar. Se paciente tem sonda ou procedimento, adicione visitas periódicas de técnico de enfermagem ou enfermeiro. Detalhamos em cuidador para acamado.
